Uma das maiores personagens do
Universo DC, a Mulher-Maravilha forma, junto com o Super-Homem e o Batman, a
trindade suprema dos heróis da editora, e ganhou recentemente um filme para
cinema, com a atriz Gal Gadot no papel da heroína, que foi um grande sucesso,
confirmando a boa impressão que a personagem havia apresentado no filme Batman
VS Superman: A Origem da Justiça. A personagem foi criada em 1941 por William
Moulton Marston, um psicólogo, que havia ajudado a criar o detector de
mentiras, e que defendia a igualdade de gêneros e era um liberal em relação ao
sexo, algo complicado na época. Daí o fato de ele ter criado uma personagem
feminina forte, independente, e que não precisava da ajuda de homem algum para
vencer seus inimigos. Até então, o papel da mulher era ser submissa ao homem, e
nos quadrinhos, quase sempre eram parte das pessoas a serem salvas pelos
heróis.
A personagem, que completou 75
anos em 2016, tem uma rica história nos quadrinhos, desde que ganhou suas
primeiras aventuras pela então National Comics, atual DC. Tão rica e cheia de
detalhes, que ganhou um livro, dissecando toda a sua carreira nestas décadas,
que agora chega ao mercado editorial nacional, pela editora Best Seller.
A HISTÓRIA SECRETA DA
MULHER-MARAVILHA traz, em suas 480 páginas, com preço de R$ 64,90, praticamente
tudo o que há para se dizer a respeito da Princesa Amazona. Escrito por Jill
Lepore, este livro é o resultado de uma pesquisa fantástica realizada pela autora,
que é historiadora da Universidade de Harvard, e redatora da revista New
Yorker, que brinda o leitor com um acesso completo sobre a origem e a história dessa
que é uma das mais importantes super-heroínas de toda a cultura ocidental. Uma
surpreendente trama familiar, com fatos cruciais para o feminismo do século XXI
e mostrando uma Mulher-Maravilha como você nunca viu antes! O livro já está
disponível nas principais livrarias on-line do país para venda, e trata-se de
um importante registro da personagem, como nunca antes foi feito.
A edição foi lançada
originalmente nos Estados Unidos em julho de 2015, pela First Vintage Books
Edition. Em sua pesquisa, Jill Lapore descobriu diversos documentos sobre a
heroína, incluindo papéis privados do criador da Mulher-Maravilha, William
Moulton Marston, nunca antes visto, e descobrindo uma história cheia de nuances
e preconceitos e discriminação sobre as mulheres. Começando em seus anos de
graduação em Harvard, Marston foi desde muito cedo influenciado por sufragistas
e feministas, como Emmeline Pankhurst, que foi proibida de falar no campus em
1911, quando Marston ainda era um calouro. Na década de 1920, Marston e sua
esposa, Sadie Elizabeth Holloway, trouxeram para casa a Olive Byrne, a sobrinha
de Margaret Sanger, uma das feministas mais influentes do século XX. A história
da família Marston era um conto de dramas, intrigas e ironia. Na década de
1930, Marston e Byrne escreveram uma coluna regular para os círculos familiares
em que celebravam a vida familiar convencional, mesmo que eles próprios
perseguissem vidas de extraordinária inconformidade. Marston viveu uma vida de segredos,
apenas para explorá-los nas páginas das aventuras da Mulher Maravilha.
Assim, mais do que explorar a
história da personagem, esta obra é um retrato do tratamento que as mulheres
recebiam na época, consistindo em uma viagem de força da história intelectual e
cultural. Para Lepore, a Mulher-Maravilha é o elo perdido na história da luta
pelos direitos das mulheres, em uma série de eventos que começa com as
campanhas de votação feminina do início dos anos 1900 e termina com o ritmo conturbado
do feminismo um século depois. O livro traz várias revelações baseadas em cartas
e fotografias nunca antes vistas dos papéis da família Marston.
Nascida em 1966, em West
Boylston, Massachusetts, Lepore desde cedo decidiu que queria ser escritora.
Embora não tivesse como objetivo tornar-se uma historiadora, sua carreira
acabou levando-a para este caminho. Ela ganhou seu bacharelado em Inglês da
Universidade Tufts em 1987, seguindo-se a um mestrado em Cultura Americana da
Universidade de Michigan em 1990. Em 1995, ela concluiu um doutorado em Estudos
Americanos pela Universidade de Yale, onde se especializou na história do
início da América. Lepore começou a lecionar na Universidade da Califórnia, em
San Diego, passando depois pela Universidade de Boston, antes de começar a dar
aulas em Harvard, onde atualmente é professora de História. Ela começou a
escrever vários livros e artigos sobre história, e outros assuntos. Seu
primeiro livro, "The Name of War", ganhou o Prêmio Bancroft; Seu
livro de 2005, "New York Burning", foi finalista do Prêmio Pulitzer.
Em 2008, ela publicou "Blindspot", uma novela simulada do século
XVIII, escrita em conjunto com Jane Kamensky. O livro mais recente de Lepore,
"The Whites of Their Eyes", é uma revisão do livro do New York Times Editors
'Choice. E em 2015, lançou estelivro sobre a Mulher-Maravilha, contando todos
os segredos de bastidores da vida da família do criador da personagem, e de
como estes acontecimentos se refletiram na criação e nas aventuras da
persoangem, além de apresentar a história da heroína nestes anos todos em que
foi publicada.
Para Art Spiegelman,
autor de Maus, o livro de Jill Lepore foi obsessivamente pesquisado, mostrando
uma encarnação do movimento dos direitos das mulheres. Outros definem que este
livro devolve a Mulher-Maravilha o seu legítimo lugar como um ícone essencial
dos direitos das mulheres, em um trabalho de descoberta dinamicamente
pesquisado e interpretado, espetacularmente ilustrado, que injeta um novo
entusiasmo na história do feminismo, numa história contada de maneira
irresistível, que dá muito prazer de ler. Já Alison Bechdel, autora de
Fun Home, descreve que "A História Secreta da Mulher Maravilha é tão
cruel, tão improvável, tão incrivelmente correta, como se estivesse cheia de
dispositivos curiosos próprios de uma história em quadrinhos. No nexus do
feminismo e da cultura popular, Jill Lepore encontrou um capítulo revelador da
história americana. Nunca mais vejo os braceletes da Mulher-Maravilha do mesmo
jeito."
Apesar de tudo, demorou para a
personagem engrenar. A heroína não era vista como algo revolucionário, e apesar
de ter histórias-solo, ela só foi ganhar um título realmente seu, com nome na
capa, no início dos anos 1950. Marston não chegou a viver para testemunhar todo
o sucesso que a personagem faria ao longo dos anos: ele faleceu em 1947, e
coincidência ou não, a personagem começaria a ganhar mais destaque justamente
nos anos seguintes, inclusive com seu uniforme, que até então a fazia parecer
uma dona de casa fantasiada, a ficar mais justo e curto. Mas, uma vez feita a
fama entre os leitores, a heroína não parou mais, e a força da personagem se
faz sentir até hoje, sendo a única super-heroína a ser publicada
ininterruptamente desde a sua criação, em histórias-solo, com raras
interrupções, ao contrário de outras super-heroínas que vivenciaram períodos de
fama e esquecimento. É verdade que a personagem já teve diversas abordagens ao
longo de sua história, com fases boas e ruins, e com alguns visuais e
concepções diferentes do que todo mundo conhece. Mas a Mulher-Maravilha nunca
deixou de defender seus ideais, mesmo que estes tenham passado por algumas
adaptações ao longo do tempo, e a concepção da personagem hoje a coloque como
uma verdadeira guerreira nata. Não por acaso, a heroína foi a terceira personagem
do panteão da DC Comics a ganhar um seriado de TV em live-action. O Super-Homem
foi o primeiro, no início dos anos 1950, na série estrelada por George Reeves,
enquanto que na década de 1960, Batman ganhou as telas da TV com o seriado
estrelado por Adam West. E em 1975, seria a vez da Mulher-Maravilha, cuja
imagem foi imortalizada pela atriz Linda Carter no papel da personagem, depois
de um telefilme fracassado estrelado por Cathy Lee Crosby.
Esta obra é um excelente
lançamento, não apenas por relacionar a hiistória de uma das mais antigas e
famosas heroínas dos quadrinhos mundiais, mas por dar uma grande explicação
sobre o panorama vivido pelo seu criador, em meio à luta das mulheres para ter
seus direitos reconhecidos e serem tratadas em completa igualdade com os
homens. Uma luta que, a grosso modo, não acabou até hoje, haja visto em que em
várias sociedades, a mulher ainda é tratada de forma discriminatória, e
submetida a humilhações e posições de inferiorização, como por exemplo em
certos países islâmicos, onde lhes são negados direitos dos mais simples. É um
livro que deve ser lido não apenas pelos fãs de quadrinhos, mas por aqueles que
se interessam pelos direitos humanos – de todos, sejam homens e mulheres, e de
como se travou parte da luta dos direitos femininos para terem direito também a
esta conquista. Cumprimentos à editora Best Seller por lançar esta obra no
mercado brasileiro, e que possam vir outros livros igualmente interessantes no
futuro.
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