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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

COLUNA HQ - DEZEMBRO DE 2014





YES, NÓS TEMOS UMA COMIC CON!
 




                Nos últimos dias 4 a 7 de dezembro, o mundo da cultura pop nacional passou por um acontecimento sem precedentes até então na história de nosso país. A primeira edição da Comic Con Experience, anunciada no início do ano, foi realizada na Capital Paulista, e foi um sucesso estrondoso, muito além do que todos esperavam. Como dizia seus anúncios promocionais que vinham sendo distribuídos nos meses que antecederam a grande convenção, foi de fato ÉPICO! E todos os envolvidos podem se orgulhar muito do feito.

                Quando foi anunciado no início do ano, em uma parceria do site informativo Omelete com a Chiaroscuro Studios, muita gente ficou com o pé atrás. Uma convenção, no estilo dos grandes eventos do gênero existentes nos Estados Unidos, sendo realizado no Brasil? E ainda por cima por um pessoal teoricamente novato na área? E anunciado com tanta antecedência, como é praxe de eventos altamente organizados e profissionais, que sempre fecham datas e locais com este tipo de antecedência? Parecia bom demais para ser realidade.

                O panorama dos eventos dedicados à cultura pop/nerd no Brasil nunca foi exatamente dos mais diversificados. Tivemos as saudosas Bienais dos Quadrinhos nos anos 1990, onde os fãs da arte sequencial davam vazão à toda a sua paixão por este ramo da indústria do entretenimento, e que infelizmente não tiveram continuidade. Em 1999, surgiu um evento que marcaria época em nosso país: surgia o Animecon, o primeiro evento de grandes proporções dedicado às produções nipônicas de animação e quadrinhos, os famosos animes e mangás. Até então, tínhamos alguns eventos aqui e ali, mas todos de pequeno porte, e realizados de forma por vezes amadora e improvisada, o que não impedia o público de se divertir bastante. O sucesso do Animecon mostrou que havia espaço para eventos de grande porte, e em 2003, ainda tendo como tema as produções japonesas, surgia o Animefriends, com a proposta oficial de profissionalizar a execução de eventos no país, inovando em vários aspectos, mas também criando celeuma entre os fãs pelo fato de ter surgido batendo de frente com o Animecon, numa concorrência que nada de sadia tinha, marcando sua realização até para os mesmos dias da outra convenção, e em um local próximo no mesmo bairro de São Paulo, capital (alguém ainda acredita que foi coincidência as datas serem as mesmas?), e ainda fomentando discussões entre os fãs, que defendiam o novo evento e execravam o anterior.

                Com dois eventos de grande porte, proliferaram-se os eventos pelo país fora. Entre os mais conhecidos, tínhamos o SANA, no Nordeste, e o Kodama, em Brasília-DF. Mas todos os eventos eram dedicados em maior ou menor grau aos animes e mangás. Havia eventos que abordavam de tudo um pouco, mas os que tinham a palavra "anime" em sua denominação eram em maior número. E os eventos dedicados ou baseados nos quadrinhos? Estes quase não existiam. Anime e mangá era o novo hit do público, o que não quer dizer que os quadrinhos foram esquecidos. Aos poucos, eles passaram a ganhar suas próprias convenções, como o Fest Comix, surgido a partir de um feirão promovido regularmente pela loja Comix Book Shop, a Gibicon, Multiverso ComicCon, entre outros, além daquele que se tornaria um dos mais importantes eventos de quadrinhos do país, o FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos, realizado em Belo Horizonte. O próprio Animefriends também passou a abraçar mais os quadrinhos não-japoneses, criando sub-eventos realizados dentro de si próprio em duas oportunidades: a São Paulo Comic Fair, e o Brasil Comic Con. Mas ainda faltava algo, um evento mais dedicado à cultura pop, nascido dos quadrinhos, e que a partir daí abraçou os demais mercados culturais intimamente ligados ao universo das HQs e todos os seus desdobramentos, como animação, filmes, brinquedos, etc. Em suma, uma verdadeira "comic con", no sentido específico que  todos já ouviam falar.

                Há muito os fãs nacionais vêem notícias das grandes convenções americanas, sendo a de San Diego, na Califórnia, a mais famosa de todas as "Comic Cons" dos Estados Unidos. Surgida de um encontro de fãs de quadrinhos, o evento cresceu de maneira assombrosa, de modo que hoje é um espaço disputadíssimo por editoras, artistas, emissoras de Tv, estúdios de cinema, e fabricantes de produtos licenciados dos mais diversos gêneros. Não se podia imaginar a inveja dos fãs nacionais ao verem as imagens deste tipo de convenção dos EUA, com centenas de estantes das mais diversas empresas, vendendo todo tipo de produto, fazendo promoções, encontro com artistas, produtores, profissionais diversos, promovendo lançamentos, concursos de fantasias, etc. Seria possível realizar um encontro desses aqui?

                As experiências obtidas com eventos como Animecon, Animefriends, além dos eventos destinados a gamers mostraram que seria sim possível. Mas quem iria topar a empreitada? Os organizadores de eventos nos últimos tempos ficaram relativamente acomodados, inovando muito pouco ou quase nada nas convenções, com raras exceções. E São Paulo, o maior centro cultural do país, estava em um marasmo onde a concorrência de grandes eventos do gênero foi sufocada pelo Animefriends, cuja empresa organizadora, a Yamato Produções e Eventos, saturou o calendário paulistano criando eventos menores durante praticamente todo o ano, "matando" o nascimento de possíveis concorrentes. Sobrava apenas o Fest Comix, e eventos de pequeno porte, como o "Mercado das Pulgas", que virou convenção também. Tudo indicava que seria preciso um pessoal novo que topasse a empreitada. E felizmente, surgiu este pessoal.

 Entrada do evento, realizado no São Paulo Expo Exhibition & Convention Center: quase 40 mil m² dedicados à cultura pop/nerd.

                A Comic Con Experience foi resultado de praticamente dois anos de preparação, onde o pessoal do site Omelete e do Chiaroscuro Studios foram precisando vencer inúmeras etapas, e efetuar um planejamento metódico para que tudo fosse feito da melhor forma possível e sem sustos. E ainda vencer o principal inimigo que poderia surgir: a descrença do público e do mercado neste tipo de empreendimento em solo nacional. E eles conseguiram vencer todos os desafios, não sem terem certamente vários percalços pelo caminho. Não posso negar que, à primeira vista, me pareceu também que seria algo grandioso demais para o Brasil. O mercado dos Estados Unidos é infinitamente maior do que o brasileiro, não apenas no público potencial, mas também no poder aquisitivo, com o agravante de que tudo em nosso país costuma sair mais caro do que por lá. Mas a repercussão desde o início era grande, e a curiosidade de descobrir o que poderia ser esta CCXP foi vencendo todas as resistências, ao mesmo tempo em que os organizadores foram divulgando os convidados e atrações que estariam presentes na convenção que promoveria uma "experiência" sem igual para todos o fãs, fossem eles de quadrinhos, animação, e/ ou cinema.

                Seria um passo decisivo também para alavancar ou tentar alavancar de vez a participação das empresas neste tipo de convenção. Até a CCXP, todos os eventos, em maior ou menor parte, sempre tiveram a presença de empresas oficiais em sua realização, fossem patrocinadores, e/ou parceiros de algum lançamento feito durante a convenção. Mas, ao mesmo tempo, nenhum evento conseguiu contar apenas com produtos "oficiais" em seus estandes de vendas. E uma das coisas que na última década proliferou nestes eventos eram estandes de produtos não-oficiais, como DVDs piratas, além de chaveiros, roupas e outros artigos não-licenciados pelos respectivos detentores das marcas. Uma "Comic Con" digna do nome, como as que existem nos EUA, contam exclusivamente com produtos oficiais, o que motiva as empresas a investirem nas convenções, certas da promoção e venda de seus produtos. Acontecimentos como a visita de um representante da Cloverway em 2005 ao evento do Animefriends, onde o mesmo disse ter ficado alarmado com a quantidade de vendedores de DVDs piratas que viu dentro do evento (a empresa é licenciadora oficial de várias séries de anime para o mercado ocidental), ou mesmo de uma empresa nacional, a Focus Filmes, que montou um estande oficial no mesmo evento, e onde seus funcionários declaravam que não tinham quase movimento pelo fato de o público comprar os discos piratas à venda no próprio evento, poderiam "queimar" a imagem da convenção aos olhos de muitas empresas que tratam isso como algo muito, muito sério. Conseguir contar com empresas de porte como a Disney, Warner, Fox, Sony, só para citar os grandes estúdios, além das empresas de brinquedos e editoras presentes no mercado nacional, foi um feito tremendo, e para que tudo desse certo, o público teria de se acostumar com outro tipo de venda de produtos dentro da convenção.

                O trajeto do anúncio oficial do evento até sua realização teve alguns percalços. Houve alguns mal-entendidos, como o que seria realmente a CCXP: um evento dos americanos experimentando o mercado nacional, ou uma empreitada brasileira tendo como inspiração as grandes convenções americanas? Felizmente, estas dúvidas não duraram muito tempo. Houve, claro, quem tentasse se aproveitar da situação. A Yamato, organizadora do Animefriends, tentou se adiantar criando para o mês de novembro uma edição solo da Brasil Comic Con, nome do espaço de quadrinhos que tinha dentro do Animefriends. Se a idéia era confundir o público e garantir a presença deste em sua convenção, realmente conseguiu confundir muitos, que não souberam distinguir exatamente qual evento era o quê, com o nome "comic con" sendo mencionado a torto e a direito. Nos últimos anos, fazendo marcação cerrada em eventos concorrentes, a Yamato sempre marcou suas convenções em dias próximos, o que derrubava os eventos concorrentes. Se a idéia era repetir a dose, caiu do cavalo: a Brasil Comic Con teve cerca de 15 mil visitantes em seus dois dias, e embora não se possa dizer exatamente que foi ruim, quem esteve presente neste evento não conseguiu sentir por lá um clima muito positivo. Ele teve suas atrações, é verdade, mas com a proximidade da CCXP, muita gente, além de várias empresas, preferiram apostar no novo evento que seria realizado em dezembro, o que esvaziou a convenção da Yamato, impedindo-a de obter resultados melhores.

                O fato de ser anunciada com grande antecedência permitiu a muitos fãs se programarem adequadamente para ir ao evento, especialmente com relação aos gastos que teriam com ingressos, e para quem era de fora de São Paulo, capital, passagens e estadias, além de, claro, guardar dinheiro para os gastos dentro do próprio evento, que prometia ter produtos exclusivos que nenhuma outra convenção no país teve até hoje. E, mesmo com a venda antecipada de ingressos tendo sido além das expectativas, nos dias do evento, as bilheterias do evento não tiveram folga, em especial no dia 6, sábado, onde mesmo após as 13:00 ainda havia uma fila quilométrica para de adentrar o pavilhão do São Paulo Expo Ehxibition Center (antigo Centro de Convenções Imigrantes), que não demorou muito para ser vencida, permitindo que todos adentrassem o evento a tempo de aproveitarem o que de melhor havia por lá.




Num momento de "calmaria", todo este espaço dentro da CCXP parecia até exagerado, mas ele não demorou a ficar completamente lotado de fãs (abaixo).
 

                Foi realmente um assombro adentrar a CCXP logo no primeiro dia. Estandes imensos e majestosos. Editoras presentes com seus principais produtos. Lojas e empresas de brinquedos oficiais. Palestras e painéis a rodo. Cosplayers. Praça de Alimentação pra ninguém botar defeito, com direito até a restaurante self-service (comida de verdade, pra variar, num evento deste tipo). Sessões de fotos e autógrafos para quem tinha comprado pacotes "VIP". E dezenas de artistas e profissionais expondo e vendendo seus trabalhos. Se achavam que era impossível "trazer" a Comic Con de San Diego para cá, bem, eles conseguiram realmente o impossível, mesmo que muita gente fale que os números da convenção estadunidense deitam e rolem sobre os números da CCXP (O que convenhamos, seria pedir demais que nossa convenção, em sua primeira edição, batesse um evento que já tem mais de 3 décadas de existência, desde seu início modesto, até o gigantismo que tem hoje).

                A CCXP teve uma distribuição bem racional dos espaços dos estandes, e com setores bem definidos. E instalações limpas e bem cuidadas. Quem já teve traumas com banheiros em outros eventos não teve com que se preocupar: durante todos os 4 dias, as instalações sanitárias estavam impecáveis, por maior que fosse o movimento. Tudo sinalizado de forma satisfatória, o que não impedia o pessoal às vezes de se perder no meio da multidão. Para estes momentos, a revista de apresentação  da  convenção,  distribuída  junto  à  entrada,  era  item  indispensável,  contendo mapa, programação completa, e relação de todos os artistas e desenhistas presentes no "Artist's Alley", o que permitia ao pessoal se localizar adequadamente dentro do espaço de quase 40 mil metros quadrados dedicados à CCXP. Mesmo assim, o gigantismo do espaço por vezes pregava algumas peças no público quando se procurava alguma coisa e se virava "à esquerda" ao invés "da direita" em alguma "esquina" lá dentro. Mas nada que não pudesse ser resolvido. Talvez a única reclamação fosse o reduzido número de bebedouros, onde se formaram imensas filas para o público reabastecer suas garrafinhas de água, com a qual matavam a sede e tentavam mitigar o calor, que no sábado e domingo, mesmo com o forte sistema de climatização instalado, não conseguiu dar conta de refrescar o ambiente devido ao grande número de visitantes. Ah, e claro, preços de alimentos em eventos quase nunca são baratos, e isso já devia ser esperado por todos, o que não impediu que a praça de alimentação, com um grande espaço, fosse inteiramente ocupada pelo público presente na hora de repor as energias e reabastecer o estômago.
 O "Artist's Alley" (Beco dos Artistas, em português) contou com praticamente mais de 200 profissionais da área, onde expuseram seus trabalhos, venderam artes personalizadas, deram autógrafos, e ainda bateram um bom papo com os fãs. Abaixo, Daniel HDR, fingindo cara feia para espantar o pessoal, mas adorando cada momento da CCXP (e vendendo muito mais do que esperava...)...

                E o melhor de tudo era ver o público presente. Não apenas a quantidade em si, mas como era esse público: havia crianças, adolescentes, adultos, e até idosos curtindo a convenção. E vários pais que levaram até os filhos de pouca idade, alguns até mesmo com fantasias, mostrando que ser fã realmente não tem idade nem qualquer outra diferenciação. Havia desde visitantes solitários a famílias inteiras curtindo a CCXP, num clima totalmente diferente do que se vinha vendo nos últimos eventos dedicados aos "animes", onde muitos alegam ter sido "empestiado" por um público que nem sabe o que é ser realmente fã de alguma coisa. Em outras palavras, frequentado por gente que não tinha muito a ver com a temática da convenção. Na CCXP, isso não se via, muito pelo contrário: quem estava ali sabia o que procurava, e o que queria curtir dentro do evento. E todos se confraternizavam igualmente, sem nenhum tipo de picuinha com relação a se preferir série X ou Y, ou quem gostava de personagem tal em relação a personagem fulano. Se houve algum desentendimento entre fãs por lá, não é de meu conhecimento, e nem que tenha sido divulgado algo neste tipo de ocorrência. Ali, não importava a cor de ninguém, nem que religião a pessoa seguia, ou time de futebol, ou apreciador de quadrinhos ou desenhos ou filmes: todos eram fãs, apenas isso, e nada mais do que isso. Foi uma confraternização sem precedentes para todos os fãs da cultura pop/nerd, onde amigos se encontraram, bateram papo, discutiram numa boa, onde novas amizades foram feitas, onde muita gente conheceu muito mais gente ainda, tudo num clima de camaradagem e respeito como há muito não se via em uma convenção neste país. Não havia espaço para rixas e briguinhas imbecis na CCXP. E todos os fãs que são fãs sérios e sensatos puderam curtir como nunca o que havia a ser oferecido.

                Formaram-se filas para autógrafos, fotos, auditórios, etc. Impossível conseguir aproveitar tudo o que estava acontecendo dentro da CCXP. Não havia como estar em todos os lugares em tempo hábil. Houve quem perdeu até 4 horas em filas para conseguir o autógrafo de um desenhista em uma edição que ele tenha participado da arte. Na sexta-feira, o painel dedicado a "Vingadores 2 - Era de Ultron" teve sua lotação esgotada praticamente mais de duas horas antes do horário de início. Quem conseguia participar de determinados painéis tinha logicamente de sacrificar seu aproveitamento do restante da convenção, algo que se repetiu para outras filas que se formaram dentro da convenção, especialmente no sábado e no domingo. Os corredores e estandes, imensos à primeira vista, tornaram-se pequenos e apertados diante do fluxo de fãs que parecia interminável. Mas todo mundo conseguia se locomover, com maior ou menor rapidez, e sem desentendimentos com ninguém. E olhe que tudo ainda ficava muito mais complicado com as inúmeras fotos que todos tiravam a todo instante, tentando captar os melhores momentos e ao mesmo tempo não incomodar os demais. Para sorte do público, as atuais câmeras digitais, bem como filmadoras e celulares, são uma mão na roda na hora de tirar centenas de fotos. Nos velhos tempos do filme de revelação, este evento faria disparar a venda de películas de filmes, e ainda teríamos de esperar pelas revelações para vermos se conseguimos aproveitar todas as fotos.

                O resultado não poderia ser outro: todos os estandes que levaram produtos para vender saíram plenamente satisfeitos. Em alguns, como o da livraria Comix e da editora Panini, havia filas até para se adentrar nos seus espaços, tamanho o fluxo do público que se formou de fãs querendo comprar produtos. Isso tornou a movimentação dentro de ambos extremamente desgastante, uma vez que o espaço se mostrou apertado frente ao imenso público consumidor, sendo que na Panini havia o inconveniente de várias publicações estarem todas juntas num mesmo balcão, misturadas, obrigado o público a procurar o que queria encontrar. Os descontos variavam, e havia opções para todos os bolsos e gostos. Nos estandes dedicados a brinquedos, havia desde as opções "populares" até as mais caras e improváveis, como uma armadura do Homem de Ferro com iluminação, para quem tivesse grana suficiente para comprar este tipo de produto para deixar em casa. Quem tinha grana curta ou bom senso só podia mesmo ficar babando com tanta coisa legal para apreciar.

                Cada estande procurou oferecer suas próprias atrações. Na Comix, o maior destaque era a presença do desenhista Keno Don Rosa, que ilustrou várias aventuras do Tio Patinhas, Donald & Cia. para a Disney. Na JBC, rolou seletivas de cosplay e palestras variadas. A Netflix, com um dos maiores estandes do evento, promoveu a pré-estréia de sua série Marco Polo, com direito a presença do elenco principal; e por aí vai. Não houve quem ficasse perdido tentando escolher qual atração iria acompanhar. E os artistas e desenhistas presentes no "Artist's Alley" travaram um longo e produtivo contato com o público visitante, com direito a muitas fotos, bate-papos, e principalmente artes e produtos próprios vendidos, mesmo que alguns tenham ficado até com caîbras de tanto tempo sentado durante os 4 dias. Mas todos eles saíram mais do que satisfeitos do evento, mesmo aqueles que já tinha até estado nas convenções americanas vendendo seus trabalhos neste mesmo tipo de espaço. E olha que tinha até artista internacional por lá, o que mostra que o nível do pessoal era bem elevado. E todos eles afirmaram que o evento brasileiro em nada ficou a dever aos eventos que frequentam no exterior, opinião que foi compartilhada tanto pelos profissionais estrangeiros quanto pelos artistas nacionais.



Warner (acima) e Netflix (abaixo) tinham os maiores estandes do evento, cada uma promovendo seus grandes lançamentos na CCXP 2014.



                Cada empresa tratou de promover seus lançamentos, e tivemos algumas pré-estréias bem-vindas, como de Big Hero, Marco Polo, e do terceiro e último filme de "O Hobbit". Mesmo assim, pode-se notar que várias empresas foram até conservadoras em seus lançamentos programados para o evento. Cito de exemplo a Warner, que poderia ter promovido em seu estande um de seus principais lançamentos do ano, da série do Batman dos anos 1960 em um box completo em DVD. Com um batmóvel exposto em seu estande, justamente o modelo usado naquele seriado, se a distribuidora tivesse promovido por lá o lançamento do box, que chegava ao mercado nacional de vídeo naquela mesma semana, teria sido uma jogada de arraso na promoção do produto. Aliás, produtos de vídeo foram praticamente ignorados pelas distribuidoras, que não lançaram e/ou colocaram à venda praticamente nada em seus estandes no que tange a DVDs e/ou Blu-Rays, nem se viu nenhuma promoção e/ou atividade visando sorteio de produtos deste tipo. Quem queria os últimos lançamentos em vídeo precisava recorrer ao estande da Comix, que nem tinha um grande espaço destinado para isso, infelizmente.

                Mas também não se pode culpar as empresas por serem conservadoras neste quesito. Sendo a primeira convenção deste porte e molde no país, conseguir a presença oficial de todas elas já foi uma vitória e tanto, e todas elas deram declarações de que saíram extremamente satisfeitas, para não dizer até impressionadas, com a organização, público e receptividade obtidas durante os 4 dias da CCXP. Decerto isso garantiu para os organizadores seu maior lucro para a convenção de 2015, que já está marcada para os dias 3 a 6 de dezembro do próximo ano: a credibilidade e confiança de todos que lá estiveram. Isso deverá facilitar as futuras negociações com outras empresas, além de garantir a presença de quem já lá esteve, que vendo o sucesso do empreendimento, não vai querer perder seu espaço. E, vendo o resultado além de todas as projeções esperadas, todas as empresas com certeza já poderão agendar um maior número de lançamentos para serem feitos durante a convenção de 2015, certos do potencial de incremento na promoção e divulgação dos mesmos. Além de motivar quem preferiu ficar de fora este ano para ver o que rolaria mesmo a sério por lá.  

                E não apenas as empresas grandes (leia-se estúdios) foram conservadoras: até mesmo vários artistas presentes no Artist's Alley levaram poucos materiais para venda na convenção, temendo ficar com muita coisa sem vender, e muitos ainda custavam a crer que a CCXP superou suas expectativas mais otimistas, o que fez com que vários deles vendessem tudo quase nos dois primeiros dias. Quem trouxe uma reserva tratou de buscar, mas quem esgotou seu estoque só pode aproveitar para fazer artes "na hora" de quem quisesse comprar, já que não tinham mais material preparado para vender. Até a Panini marcou bobeira: várias edições procuradas pelos fãs esgotaram rapidamente, e a editora não conseguiu repor o material, perdendo a chance de vender ainda mais do que já havia vendido. E as vendas só não foram ainda maiores porque algumas empresas não estavam vendendo seus produtos, só expondo, ou no máximo vendendo assinaturas, o que foi uma tremenda chance jogada fora para muitos, que ficaram frustrados por não poder comprar vários itens expostos na convenção. Na minha opinião, uma bela pisada na bola, pois perderam um grande público que naquele momento estava disposto mesmo a aproveitar a oportunidade para comprar o que pudesse.




As armaduras do Homem de Ferro (acima) e do Cavaleiro de Ouro de Leão (abaixo) chamaram a atenção dos fãs. Quem não queria ter uma dessas em casa?

                Os números que o digam: foram cerca de 97 mil visitantes durante os 4 dias, e se levarmos em consideração que aproximadamente dois terços deste público efetuou compras de produtos à venda dentro da exposição (tomando como base conservadora que cada comprador tenha gasto pelo menos R$ 200 lá dentro), o movimento de venda de produtos pode ter ultrapassado a casa dos R$ 10 milhões, um número impressionante para o evento, e que certamente não passou despercebido por quem lá esteve representado, e nem passará despercebido por várias outras empresas da área que desejem estar presente em edições futuras. E mais empresas oficiais participando abre espaço para ingressos mais acessíveis, com o surgimento de patrocinadores que desejem vincular seus nomes à convenção, como o que acontece em vários eventos nos Estados Unidos e outros países. E com mais verba, as chances de mais atrações e convidados crescem bastante, para não mencionar um público muito maior tendo chance de comparecer ao evento, pois apesar deste grande número de visitantes, houve muitos que não tiveram chance de aproveitar justamente pelo fato do ingresso custar mais caro do que esperavam. No sábado, por exemplo, os ingressos na bilheteria estavam a praticamente R$ 100, valor que certamente deve ter afugentado muitos potenciais visitantes.

                Todo este público chamou a atenção de inúmeros veículos de imprensa. Além de todos os veículos especializados na área já cadastrados, durante os dias do evento estiveram presentes equipes de reportagem das mais diversas emissoras e jornais de grande circulação, que deram destaque à convenção, em maior ou menor grau. E olhe que os grandes jornais atualmente reduziram bastante as notícias que publicam relacionadas a acontecimentos deste tipo de assunto, focando-se quase sempre em matérias rápidas e notas curtas. Mas era impossível traduzir a magnitude da CCXP em poucas linhas, o que obrigou os veículos leigos ao assunto a terem que dedicar um espaço maior para tentar traduzir o que estava acontecendo por lá ao seu público leitor. E nem sempre os repórteres designados para o trabalho entendiam do riscado, o que só deu mais trabalho na hora de montar as matérias a respeito. Mas, no geral, a CCXP simplesmente agitou os jornais e telejornais, que não puderam deixar isso passar em branco, sem noticiar nada a respeito.

Dois dos grandes nomes dos quadrinhos presentes na CCXP: José Luiz Garcia-López (acima, em painel apresentado pelo jornalista Sidney Gusman, do Universo HQ), e Keno don Rosa (abaixo, dando autógrafos e fazendo desenhos para os fãs no estande da Comix). Mas houve muitos outras feras presentes na convenção, cujos autógrafos foram pra lá de disputados pelos fãs.

                É uma equação por vezes difícil equilibrar os gastos de um evento desta magnitude, que envolve um investimento de grande porte, com inúmeros gastos de monta, como o local onde a convenção foi sediada, que não é barata, o transporte oferecido ao público desde o Terminal Jabaquara e o local do evento e vice-versa, além dos custos dos convidados e atrações internacionais. Com mais empresas e possíveis patrocinadores, existe a chance de se ter um equilíbrio mais fácil de ser atingido, e quem sabe, preços mais em conta sem sacrificar a contratação de atrações e profissionais do meio para o evento, que é um dos principais atrativos deste tipo de convenção, embora não seja o único. E quanto mais atrações melhor. E mais nomes famosos para engrandecer o evento.

                Não que não tenhamos tido vários nomes interessantes nesta primeira CCXP. Houve atrações para todos os gostos, e apesar de nem todo mundo ter conseguido encontrar com o seu ídolo escolhido na convenção, já foi um excelente começo. Mas pode melhorar ainda mais. Os excelentes resultados e a credibilidade adquirida neste primeiro evento contarão muitos pontos a favor na hora de se contactar profissionais e astros que estejam dispostos a vir para edições futuras. E muitos destes profissionais já se mostraram bem receptivos a vir conhecer seus fãs tupiniquins. Mas isso sempre envolve negociações complicadas, que por vezes independem da vontade do próprio profissional, que tem uma série de compromissos que nem sempre o deixam disponível na data solicitada. Aliás, alguns dos nomes contratados para virem à CCXP tiveram de ser cancelados próximo à realização do evento, em virtude de compromissos inesperados que surgiram em seus afazeres profissionais. E os fãs precisam lembrar, antes de criticar tal acontecimento, que os artistas tem de priorizar seus serviços, que é de onde tiram seu sustento e sua fama perante os fãs. Por mais que queiram atender a seus fãs, o trabalho e compromisso profissional vem primeiro. Ser um artista é mais complicado do que parece à primeira vista, e nem todo fã entende ou sabe disso.


Os painéis (acima, fora e dentro dos auditórios) tiveram filas imensas e todos estiveram lotados para as apresentações exibidas. E os estandes (abaixo) também acumularam filas de fãs querendo comprar os produtos. De gibis, filmes, a brinquedos, havia de tudo. Haja bolso para aguentar o tranco...


                Ao fim da convenção, no auditório principal, quando foram anunciados os nomes do concurso de cosplay do evento, os organizadores subiram ao palco e agradeceram efusivamente a todo o público que havia comparecido e ainda estava por lá, que ajudou a primeira Comic Con Experience a superar todas as expectativas que eles imaginaram, e que todo o esforço e sacrifício despendido por eles nos últimos dois anos para viabilizar aquele momento havia valido a pena, e que não teriam conseguido realizar nada sem a colaboração de todos, público, empresas, profissionais do ramo, etc. Um reconhecimento a todos os envolvidos, e já prometendo esforços redobrados para transformar a CCXP de 2015 em algo ainda maior do que este evento inaugural foi.

                A CCXP realmente causou sensação, não apenas no público presente, mas também nas empresas envolvidas, que saíram ambos mais do que satisfeitos com o que viram e sentiram, e isso deverá se fazer sentir nos demais eventos existentes pelo país, sejam de quadrinhos, sejam de animes, etc. Qual será o impacto e a mudança que isso irá causar ainda estamos por descobrir, mas acredito que o panorama das convenções no Brasil passará por mudanças. Como e que tipo de mudanças isso vai causar é particular para cada evento e convenção, mas todos eles certamente sofrerão algum tipo de influência que, todos esperam, seja para melhor, fazendo com que todos evoluam e reforcem ainda mais este modelo de entretenimento ao público organizado por vários fãs e profissionais por todo o país. É o tipo de competição "saudável" que se deseja que sempre aconteça, e não a competição "predatória" que temos visto na grande maioria das ocasiões, onde por vezes o objetivo de um evento não é entreter e divertir o público propriamente, mas destruir o evento rival, e monopolizar o mercado do segmento. Nas boas competições, os eventos precisam encarar seus erros e melhorar sempre, não apenas para garantir seu lugar ao sol, mas para oferecer ao público visitante e empresas envolvidas as melhores condições de diversão, entretenimento, e trabalho.

                Que o futuro dos eventos no Brasil seja o mais positivo possível. E, a partir deste ano, todos os fãs poderão dizer com orgulho aquilo que há tempos sempre quisemos: Yes, nós temos uma Comic Con!!! E como temos!
 
QUE VENHA A CCXP 2015!!!!!!

E, enquanto a Comic Con do ano que vem não chega, fiquem aqui com mais algumas fotos, em especial de alguns cosplayers que estiveram no evento deste ano:


PS: Sim, esse Tony Stark aqui da foto era um cosplayer...

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

COLUNA HQ - ESTRÉIA



            Saudações, pessoal. Trago aqui hoje um novo tipo de material para o blog. É a estréia da COLUNA HQ no HQPRESS, que aqui terá uma temática diferente da COLUNA HQ original, publicada em jornal. Enquanto a versão impressa traz matérias curtas, para facilitar a publicação nos periódicos, que hoje em dia andam regulando cada vez mais espaço para notícias sobre quadrinhos e similares, esta versão on-line será mais como um editorial, onde irei colocar minha opinião pessoal sobre algum assunto que considere relevante no universo dos quadrinhos, seriados, filmes, etc, tudo o que diga respeito à cultura pop/nerd. Já trago alguns pequenos comentários e opiniões nas matérias aqui publicadas, mas nestas, o enfoque ainda é feito de maneira mais objetiva, enquanto na COLUNA HQ o enfoque será subjetivo, trazendo meus pontos de vista e minhas explicações sobre eles.
            Obviamente que não irei agradar a todos. Talvez eu tenha opiniões que colidam com as de muita gente, ao mesmo tempo em que outros concordarão com o que penso. Não é minha intenção ser o dono da verdade. Espero apenas trazer algumas boas discussões sobre alguns temas que podem ser interessantes a todos que aqui frequentam em busca de notícias e matérias sobre o universo pop/nerd. E começo hoje abordando a enxurrada de coleções de quadrinhos de luxo que estão invadindo as bancas nacionais. Curtam então o texto de minha nova versão da COLUNA HQ...

PS: A versão impressa da COLUNA HQ continua nos mesmos moldes. Apenas aqui ela terá seu caráter exclusivamente opinativo. E vamos em frente...



COLEÇÕES DE LUXO A RODO...PARAÍSO OU INFERNO?


A Salvat deu o pontapé inicial com sua Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel. E quer mais...

                Para quem curte colecionar quadrinhos, podemos dizer que o momento atual do mercado nacional é único. Temos um número grande não apenas de títulos mensais como de edições especiais, e de vários gêneros. Sem dúvida algo muito bom. E a coqueluche do momento, é sem dúvida, as coleções de luxo, "graphic novels", que algumas editoras estão lançando no mercado nacional no último ano, com um acabamento primoroso, como o leitor sempre quis de seus quadrinhos favoritos. Uma maravilha, não? Quem poderia esperar que chegaríamos a esse ponto anos atrás? Todo mundo está contente. Ou quase. Para dizer a verdade, tem é muita gente preocupada também. E não é à toa.
                Falando exclusivamente das coleções de luxo, tudo teve início no ano passado, quando a editora Salvat, através de um acordo de parceria com a Panini Comics, lançou sua coleção de Graphic Novels da Marvel. Primeiro em algumas cidades para teste de aceitação, esta coleção passou a ser distribuída pra valer a partir de agosto de 2013, sendo lançada nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, e Paraíba. Os dois primeiros são os principais mercados consumidores de quadrinhos do país. O fato da Paraíba estar inclusa, a rigor, não vem ao caso querer saber porquê, e antes que me acusem de desprezar o estado do Nordeste, devo dizer que fico feliz pelos leitores paraibanos estarem tendo esta chance junto dos de São Paulo e do Rio, e espero que o quanto antes leitores dos Estados restantes possam apreciar adequadamente as edições desta coleção.

                Composta de cerca de 60 edições, que são lançadas quinzenalmente nas bancas, as edições da Salvat possuem um excelente acabamento, trazem histórias completas, ou quando muito, divididas de modo a ocuparem dois volumes. O material escolhido para as edições é de bom nível, mesmo que muitos reclamem da falta de materiais mais antigos que poderiam estar inclusos, em detrimento de outros mais recentes que foram publicados há poucos anos. Não dá para agradar a todos, é verdade, mas no geral, a coleção vai bem. O principal ponto positivo é o preço, bem mais acessível do que as edições de luxo lançadas pela própria Panini, cuja qualidade não difere muito das edições da Salvat. Um ponto interessante é que completa, as lombadas dos volumes formam uma bela arte que certamente ficará muito bonita de ser visualizada nas estantes dos colecionadores. A periodicidade vem sendo bem feita, de modo que a coleção já está em sua 31ªedição. Para tentar deixar o leitor ansioso com o que está por vir, a ordem dos lançamentos é sortida: as 31 edições lançadas até o momento não são as primeiras 31 edições. A ordem está misturada, mas isso não chega a incomodar.

                Recentemente, mostrando que a coleção está realmente vendendo bem, a Salvat passou a relançar as primeiras edições comercializadas, ainda nos mesmos Estados onde já vem lançando a coleção, um sinal inequívoco de que as tiragens estão mesmo se esgotando, ou vendendo quase tudo. Caso contrário, eles passariam a lançar as edições nos Estados onde estas ainda não foram distribuídas, e isso quer dizer que, quando chegar a hora de lançar no resto do país, serão necessárias novas tiragens, mais um ponto a ser valorizado pela iniciativa da Salvat, proporcionando um belo número de edições de altíssima qualidade gráfica a um preço mais em conta que, se não chega a ser 100% popular, ainda está bem acessível.

                Agora, outra boa notícia: a Eaglemoss, outra editora especializada em coleções, começou a lançar em determinadas cidades uma coleção nos mesmos moldes da produzida pela Salvat, mas focada inteiramente nos heróis da DC Comics. Nada mais justo, não? Afinal, se estamos tendo uma coleção dos heróis da Marvel, porque não termos uma da DC também, afinal, eles merecem. E tudo indica que a partir de janeiro, se não houver mudanças de cronograma, esta coleção começará a ser vendida nos principais mercados do país, oferecendo aos decenautas um prazer por enquanto restrito aos marvetes. E porque não, para ambos os grupos? Afinal, muito fã Marvel também gosta de ler DC, e vice-versa. Então, quando mais graphic novels, melhor.


A Coleção de Graphics DC vem nos mesmos moldes das edições da Salvat, para alegria dos decenautas.

                Mas aí também vem a PlanetadeAgostini, e resolve lançar uma coleção, ou melhor, DUAS coleções de Guerra nas Estrelas (Star Wars é o caralho, eu uso o nome traduzido em português...): uma delas sendo uma enciclopédia, trazendo informações sobre planetas, personagens, armas, tecnologia, absolutamente tudo presente no universo criado por George Lucas & cia., para saciar o mais sedento fã da Força. E como desgraça pouca é bobagem para quem segue a saga dos Jedis, a outra coleção é praticamente uma compilação de boa parte dos quadrinhos publicados até hoje de Guerra nas Estrelas, começando pela quadrinização do primeiro filme, lançada pela Marvel, lá em 1977, e vindo até as mais recentes sagas lançadas pela Dark Horse nos últimos anos. E vão ser 70 volumes de quadrinhos, e mais 50 volumes da enciclopédia. Os fãs de quadrinhos podem querer mais?


A PlanetadeAgostini vem com duas coleções para arrebatar os fãs de Guerra nas Estrelas. Uma enciclopédia (acima) explicando todos os pormenores da grande saga iniciada em 1977 por George Lucas, e uma compilação dos quadrinhos da franquia como jamais se viu neste país (abaixo). Os fãs poderão sentir o poder do lado negro da Força em seus bolsos como nunca antes imaginaram...



                Acredite, podem! A mesma Salvat que lançou a coleção de Graphics Marvel, agora resolveu lançar outra coleção de edições especiais da Marvel, intitulada "Os Heróis Mais Poderosos..." trazendo edições focadas em um personagem e/ou grupo da famosa Casa das Idéias. Já está saindo em algumas cidades, seguindo o tradicional cronograma de testes, então, preparem-se que logo, logo, esta nova coleção também entra "pra valer" na competição. E nem mencionei ainda outra coleção, também em fase de testes, da mesma Salvat, que está lançando todos os álbuns de Asterix com qualidade de luxo, para fã nenhum do intrépido guerreiro gaulês criado por Albert Uderzo e René Goscinny botar defeito. Realmente, nunca antes na história do mercado nacional de quadrinhos, tivemos tantas opções de edições com tão alta qualidade à disposição do público leitor. É o paraíso, não?


Asterix e seus companheiros também estão ganhando uma coleção de luxo pela Salvat. Leitores, preparem-se e torçam para a famosa poção mágica fortalecer seus bolsos, por Tutatis!

                Depende. Assim como muitos outros fãs de quadrinhos, fico realmente contente em ver vários lançamentos de qualidade gráfica deste nível no Brasil. Gibis, antigamente, não passavam de "coisa de criança", e agora, se vê que o status das publicações de quadrinhos atingiu outro patamar, com muito mais reconhecimento. E as editoras que até então não investiam nesse mercado, que ficava restrito apenas a empresas como Abril ou Panini, agora parecem dispostas a brigar para conquistar o público leitor, oferecendo um leque de opções interessante e variado. Mas...será que o público leitor vai aguentar comprar tantas coleções? Poucos serão capazes disso, e a maioria, acreditem, não vai suportar o tranco.

                Ah, mas ninguém é obrigado a comprar tudo...você compra apenas a edição que lhe interessa...nem todo mundo gosta do mesmo material... De fato, todas estas afirmações são verdades incontestáveis, mas o buraco é um pouco mais complicado. Em primeiro lugar, se nos atermos apenas às coleções elencadas acima, o panorama não é tão diversificado assim. Tirando Asterix, uma das mais famosas séries de quadrinhos franceses, todas as demais coleções são do gênero "comics", que se tornaram sinônimo de super-heróis. E estes materiais vêm de poucas editoras, Marvel, DC, e Dark Horse (Guerra nas Estrelas). E mesmo havendo a tradicional preferência marvete/decenauta, muitos certamente vão querer comprar também as edições da outra editora. Sou um marvete inveterado, mas isso não me impede de comprar quadrinhos da DC, quando gosto de uma história boa que eles publiquem. Assim, o inverso também é verdadeiro: muito decenauta não torce o nariz de comprar boas histórias da Marvel. Claro que existe quem lê Marvel e não quer saber de DC, e vice-versa, mas acreditem, esse público hoje não é tão radical quanto já foi um dia.

                E o material de Guerra nas Estrelas, por sua vez, com histórias contadas no mesmo estilo, apesar de sua origem nos cinemas, também disputa praticamente quase o mesmo público que lê Marvel e DC, com pouca diferença de mentalidade. E Guerra nas Estrelas vem com duas coleções igualmente interessantes, que merecem ser lidas sem distinção. Em outras palavras, a grosso modo, todas estas coleções vão disputar boa parte do mesmo público leitor, e igualmente, boa parte dele tem desejo de colecionar tudo o que estará sendo oferecido. O problema é que poucos serão capazes de fazer isso.

                A economia brasileira não anda bem das pernas nos últimos tempos. Qualquer um vê isso. E com dinheiro curto, itens supérfluos são os primeiros a serem cortados do orçamento. Quadrinhos, muito provavelmente, ficam na alça de mira. E, com grana curta, o leitor terá de escolher suas prioridades. Com tantas coleções no mercado ao mesmo tempo, a maioria terá de optar por esta ou aquela coleção, ou escolher a dedo, entre todas as coleções, qual edição vai ser imprescindível ou não, sacrificando a opção de ter a coleção completa. Com o preço de cada encadernado na faixa de R$ 33/R$ 35 reais, se formos contabilizar todas as coleções, teremos algo em torno de R$ 250 reais mensais. Se levarmos em conta que nosso salário mínimo é pouco menos do que 3 vezes isso, e muita gente tem de viver com 2 ou 3 salários mínimos em nosso país, torna-se uma quantia difícil de ser dispendida por muita gente. E mesmo quem tiver condições financeiras de adquirir isso sem pesar tanto no bolso, certamente vai escolher o que melhor lhe atrair.

                Se o valor ainda não parece tão elevado, é preciso lembrar que este público leitor, muito provavelmente, também já está comprando outros títulos de quadrinhos, sejam eles os títulos de linha da Panini, Abril, ou os vários mangás atualmente lançados nas bancas nacionais. Também temos tido várias edições especiais, tanto de comics quanto de outros gêneros de quadrinhos. Então, diante de todos estes belos lançamentos, o que parece ser o paraíso pode muito bem parecer o inferno para muitos leitores, sem condições de poderem adquirir as edições que tanto almejam.

                Quero dizer então que estas belas coleções não deveriam ser lançadas por aqui? Não. Todas merecem ser lançadas. O problema é o timing dos lançamentos. Com todas vindo ao mesmo tempo, a tendência é a competição prejudicar as vendas ao invés de ajudar. Se cada coleção viesse uma após a outra, muito provavelmente venderiam bem mais, mesmo que isso demorasse mais para acontecer. Os leitores teriam melhores condições de comprar todas que desejassem, e não ter de optar apenas pelos números mais importantes, decorrente da necessidade forçada de não ter condições financeiras de comprar tudo o que desejasse.

                Ora, mas nos Estados Unidos e Europa temos coleções como essas, aos montes, e títulos de linha a rodo. Por que aqui não pode ter? Porque não dá para comparar o mercado americano e dos países da Europa ao do Brasil. O poder aquisitivo do público leitor é muito diferente da nossa realidade. Os preços de lá são comparativamente mais baixos do que os daqui, de modo que, mesmo com tantos lançamentos, o público potencial é muito maior, e mesmo com as vendas pulverizadas entre todos eles, as publicações não só vendem como têm bons lucros, o que motiva as editoras a continuarem com seus lançamentos, realimentando o mercado. Por aqui, não temos capacidade de fazer isso nas mesmas condições. Falta ao mercado consumidor nacional o que muitos chamam de "massa crítica", que podemos definir como a condição de potencial consumidor que é capaz de sustentar uma publicação.

                Nos Estados Unidos, esse mercado é tão forte, que mesmo publicações voltadas para nichos específicos conseguem vender e se sustentar sem maiores problemas. Não é uma realidade absoluta, mas abarca uma boa parte do mercado. No Brasil, esse público consumidor ainda não atingiu esse mesmo potencial de sustentação do mercado editorial. Assim, estas coleções lançadas tanto pela Eaglemoss, Salvat, e PlanetadeAgostini, juntas todas no mercado ao mesmo tempo, podem acabar mais canibalizando umas às outras do que alavancar o mercado. Há condições de todas elas se sustentarem ao mesmo tempo, com suas vendas pulverizadas entre o público consumidor nacional? Há, mas isso depende um pouco da capacidade do mercado consumidor, e também da postura das editoras.

                Tachar as editoras de gananciosas ou de incompetentes no que tange ao planejamento dos lançamentos é ser superficial. Nenhuma delas, teoricamente, está nessa para perder dinheiro à toa, e o investimento para lançar tais coleções com essas qualidades é alto, e precisa de retorno. Todas mostraram prudência lançando primeiro os títulos em teste em cidades específicas para aferirem as possibilidades de retorno, a fim de analisarem se o lançamento a pleno no mercado nacional, ainda que restrito a alguns Estados, fosse viável. Como demonstrou a Salvat, há um mercado que pode absorver este tipo de lançamento. Mas é verdade que os números de venda obtidos pela Coleção Graphic Novels Marvel foram obtidos sendo a única coleção presente nas bancas. A partir de agora, com as coleções de Guerra nas Estrelas, e das Graphic Novels DC, será que estes números de vendas continuarão tão favoráveis? Pelo sim, pelo não, a Salvat parece querer garantir o seu mercado, o que explicaria o lançamento da nova coleção da Marvel, e dos álbuns de Asterix. O objetivo seria tentar fidelizar o leitor aos seus lançamentos, evitando que migrem para alguma coleção lançada pela concorrente. Mas estes novos lançamentos, todos simultâneos, como já afirmei, podem derrubar as vendas, ao invés de fortalecê-las, pulverizando as compras do leitor, antes mais centradas em apenas uma coleção. Só o tempo dirá qual a realidade desta competição de mercado, que só agora está começando pra valer.

A Salvat acabou de chegar à metade de sua coleção de Graphic Novels Marvel e já está lançando uma segunda coleção de luxo, também voltada para os heróis Marvel...

                Estivesse a economia em pleno crescimento, as condições de sucesso poderiam ser melhores, mas 2014 tem mostrado a economia brasileira quase parando, e 2015 não garante uma retomada do crescimento. E quando a economia não cresce, os salários tendem a estacionar. E tem outro problema: a inflação está em alta, e isso pressiona os custos de produção. Do seu início em agosto do ano passado, as edições da Salvat já trouxeram um aumento de 10%. Parece pouco, mas quem teve um aumento desses no salário do ano passado para cá? Este é outro detalhe que só ajuda a complicar a situação.

                É de se esperar que as editoras conheçam plenamente este panorama, e saibam ajustar suas metas de vendas e faturamento de acordo com as possibilidades do mercado. Com um bom planejamento, mesmo que as vendas se pulverizem entre as diversas coleções e suas edições, isso não quer dizer que elas necessariamente ficariam no prejuízo, o que provocaria o cancelamento dos lançamentos. Um bom gerenciamento e condução destes projetos, calibrados adequadamente, podem garantir o sucesso de todas as empreitadas que estão sendo feitas neste filão do mercado de quadrinhos nacional, não apenas agora mas também no futuro. Mas estamos falando do Brasil, e não é surpresa que algumas empresas errem seus passos, ou confiem demais em suas capacidades, ou simplesmente façam o que der na telha, tomando decisões equivocadas e comprometendo totalmente a credibilidade e/ou qualidade dos lançamentos. Isso para não falar também das particularidades do mercado nacional, como o famigerado custo Brasil, que por vezes transforma ações empresariais corriqueiras em verdadeiros dilemas sem fim, capazes de fazer naufragar inúmeros empreendimentos, mesmo alguns deles muito bem planejados e coordenados por gente que entende do riscado. E nada impede também que as editoras estejam querendo garantir o seu filão de qualquer jeito, jogando os lançamentos no mercado de forma agressiva e talvez impetuosa demais. Se este modo de agir estiver dando a tônica dos lançamentos, todo mundo sai perdendo: as editoras, por não atingirem suas tiragens de venda esperadas, ainda que por culpa delas mesmas; e os leitores, que podem perder mais uma opção de colecionar quadrinhos, por falta de condições ideais para adquirir tais materiais, além da própria ganância do mercado editorial, superestimando as condições do público do mercado consumidor de quadrinhos. O potencial do mercado desbravado pela Salvat pode ter deixado o pessoal com olho gordo em explorar esse filão o quanto antes, e o máximo possível, antes que outros o façam.

                Como se isso ainda fosse pouco, nem mencionei que vem mais uma coleção por aí: Placas Marvel Colecionáveis, esta pela Coleções Altaya, que na verdade é uma subdivisão da PlanetadeAgostini. Os marvetes, claro, podem comemorar mais um lançamento voltado a seus heróis, ou ficar também preocupados com o grande número de lançamentos de edições de luxo de seus heróis favoritos. Temos então um paraíso de excelentes edições, mas que podem levar muitos para o inferno da falência, ou então ficar simplesmente passando vontade, vendo as edições em banca, e sem poderem comprar.

                Que as editoras saibam moderar o seu apetite com o lançamento de tantas edições ao mesmo tempo, para que todos possam sair ganhando, empresas e consumidores. O excesso e o exagero, por outro lado, podem ser o caminho para a ruína, em vários aspectos. E, de problemas, já andamos cheios nos últimos tempos, não precisamos de mais para complicar a situação...


E a mais nova Coleção de luxo vem pela Altaya. Os marvetes que preparem seus bolsos...